Acerca do Amor
2007-03-02
Dr. António Sampaio in BIPOLAR nº24 - Revista da ADEB

Qualquer trabalho sobre o amor contempla a própria humanidade. De facto o amor é intrinseco à humanidade. É o homem que ama. Nos outros animais podemos ver equivalentes, mas a expressão dos afectos é apenas resultado do seu património instintivo.
O homem ama como resultado de uma qualquer coisa muito mais complexa. O homem vive apercebendo-se das suas dúvidas, da sua finitude, da sua solidão. E é na tomada de consciência dessas situações limite que ele precisa de encontrar qualquer coisa que o ligue ao todo da humanidade e lhe devolva a plenitude da existência. O homem apercebe-se que só é alguém com o outro, que sozinho não é nada. E é na luta contra a solidão que o amor acontece.

No amor que acontece entre duas pessoas, o que existe é o desejo de fusão completa. O amor leva ao desaparecimento de barreiras entre os dois amantes. A amor é a intimidade por excelência idealmente consumida através da relação sexual. A união sexual simboliza a fusão. E é assim que acontece a união fisica que derrota a separação.
Não é assim de estranhar que o amor faça gerar o desejo de união sexual. Neste contexto, o do amor erotizado, a relação sexual não envolve o desejo de conquista mas tão somente o desejo de fusão.
Quanto acontece o amor entre duas pessoas, ele é realmente exclusivo, isto é, é vivido apenas por elas. Contudo esse amor contém simbolicamente a união com toda a humanidade. Esse fenómeno faz do amor a verdadeira religião. É que ao acontecer o amor dissolve o narcisismo e torna o homem maior e universal.
Não é o amor o que acontece quando nos ligamos a outra pessoa pela incapacidade de estarmos sós. Amor é o que acontece quando voluntariamente nos ligamos a outra pessoa capazes de vivermos, primeiro connosco e de ter adquirido um conhecimento intimo. Para me poder entregar totalmente tenho de primeiro me conhecer a mim próprio. Quanto mais fundo eu tiver ido no meu auto-conhecimento mais completa será a minha entrega.

Amar é uma arte. Como na arte, ama-se indo para além do real, do finito, do dizível e do tangível. A arte implica trabalho criativo e não apenas produtivo. A criação de qualquer arte não é, pela razão, indispensável mas dá á humanidade outra dimensão existencial. Também o amor quando acontece transporta o homem para outra dimensão. O amor como peça de arte é uma obra única em cada homem que o faz. Alguns homens pela sua natureza, pela sua maneira de estar, vão na arte e/ou no amor mais longe, conseguem-no de forma mais completa e duradoura.
É artista aquele que consegue criar a obra e através dela unir-se com o mundo. É o desejo de ultrapassar a própria individualidade e de alcançar o outro que move o homem para a criação. A arte é o veículo da fusão do homem com a humanidade de forma intemporal.
Assim a arte pode surgir como um imperativo nos que se sentem mais próximos da loucura que o isolamento encerra. Naqueles em que a solidão é mais ameaçadora surge frequentemente o engenho para a criação de pontes de ligação à humanidade.
Amar é uma arte e a arte é o amor pela humanidade.
O amor é também motivado pela necessidade de conhecer o outro, àvidos que somos do conhecimento da própria natureza humana. É também dessa necessidade, que vai além do corpo, do racional, que emerge a paixão.

 

 

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