A Difícil Construção do Homem-Macho
2012-03-07
Dr. António Sampaio

Quando pensamos na Humanidade, pensamos no homem e na mulher como os seus dois elementos. Durante milénios, evocámos quase sempre a figura do homem como seu cabal representante. De facto, culturalmente, sobretudo no mundo dito civilizado mas não só, a figura do homem, em comparação com a da mulher, é a “verdadeira” representante da Humanidade. A própria cultura judaico-cristã reforçou muito essa ideia. Realmente, ainda hoje persiste a ideia do homem como o “sexo-forte”. Mas haverá realmente razões científicas para considerar o homem “algo mais” do que a mulher? Naturalmente, como acontece na maioria das espécies sexuadas, os géneros manifestam-se geralmente de forma diferente e assumem diferentes papeis no ecossistema. A “decisão” da natureza em tornar uma espécie “apetrechada” com dois sexos distintos prende-se com a vantagem em haver mistura genética, de forma a eliminar anomalias, pela existência no código genético da descendência, de pares cromossómicos. Uma vez que se salvaguarde a consanguinidade, as “taras” cromossómicas herdadas de um dos progenitores podem ser “compensadas” pelo cromossoma homólogo oriundo do outro progenitor. Nesse ponto a civilização tem-se portado bem e tem dificultado a consanguinidade de acordo com a “intencionalidade” da natureza.

Tal dualidade cromossómica não se verifica sempre. O 23º par cromossómico é na espécie humana constituído por XY no caso do macho ( e por XX no caso da fêmea). Sendo o 23º par cromossómico o responsável pela expressão dos caracteres sexuais na humanidade, poderíamos dizer que um homem, só seria tão homem quanto uma mulher é mulher, se, no seu 23º par cromossómico, existissem 2Y (YY). Tal não é o caso. Parece que teremos de admitir que nesse par, o X existe como um “elemento de base”, ao passo que o Y simbolizará a diferença sexual masculina. Mesmo nas suas variantes patológicas, a Natureza parece nunca ter produzido um 23º par só com Y ou Ys. Pelo contrário, existem as Síndromes de Turner e de Klinefelter ( XO; XXX; XXY), mas não existem “variantes” YO , YY ou YYY.

Ao que tudo indica, o cromossoma Y “surge” para “desviar” a tendência natural da gónada embrionária e tornar possível a existência de um testículo em vez de um ovário. Só depois desse “desvio” acontecer é que se irá produzir uma hormona responsável pela criação das características masculinas – a Testosterona. Assim, parece que o programa genético básico está muito mais “inclinado” à produção de fêmeas do que à de machos.

Parece pois, que a nível genético a “pré-história” do homem é comum à da mulher, sendo a sua diferenciação “mais frágil” e “acidentada”.

Também a nível embrionário a “pré-história” do homem é mais complicada. Ele passará os seus primeiros nove meses de existência dentro de uma mulher, não dentro de um homem. Durante esse período, ele “sentirá” com a sua progenitora todas as sensações desta. O homem no útero vive “travestido” de mulher. Enquanto que uma mulher vem de uma mulher, o pequeno macho vive durante toda a vida intra-uterina, e como recém-nascido, “impregnado” de feminino. Existe sempre no Homem uma proto-feminilidade (Stoller). É precisamente por essa proto-feminilidade existir que a identidade do género está, muito provavelmente, nas mulheres mais “alicerçada” que nos homens. Isso, porque a construção de uma mulher começa mais cedo e ocorre de forma mais natural que a construção de um homem.
A masculinidade é mais tardia do que a feminilidade e o rapazinho terá de a alcançar com o próprio esforço em se separar, sem problemas, da natureza feminina de quem o gerou e amamentou. Um dia, tal rapazinho conseguirá ver na mãe um “objecto” suficientemente separado de si próprio, de modo a poder representar um “objecto” passível do seu desejo heterossexual.

O conceito clássico, segundo o qual a masculinidade resultaria de uma relação precoce heterossexual com a mãe e a feminilidade de uma relação precoce homossexual também com a mãe, parece não corresponder à cronologia dos acontecimentos. Nos primeiros tempos de vida, os dois “objectos” não existem distintamente, sendo antes um todo em perfeita simbiose.

Tal simbiose é prolongada muitas vezes por um pai que se mantêm fisicamente afastado do homem-bebé com medo do fantasmagórico “incesto homossexual”. A maioria das vezes, o pai quererá transmitir ao filho, muito mais do que afecto, um companheirismo baseado em afirmações de virilidade, tentando desenvolver nele atitudes de competitividade e de afirmação ora pela vitória, ora pela capacidade de tolerar a derrota escondendo os sentimentos ( um homem não chora!). O afecto é frequentemente “entendido” como uma manifestação feminina. Uma tal estruturação impedirá os homens de serem verdadeiramente “íntimos” nas suas relações. Dar-se-ão com outros homens na procura de afirmação viril e numa “luta” onde se diluía o mais possível a sua proto-feminilidade.

A masculinidade é um imperativo para o homem, sendo a feminilidade um fenómeno relativamente pacífico e natural para a mulher. As “cicatrizes” da proto-feminilidade levarão o homem-macho a um “eterno” medo de homossexualidade que o tornará de algum modo um ser “mutilado” de afectos. É assim que se torna realmente uma tarefa difícil a construção do homem-macho.


António Sampaio
Psiquiatra

 

 

< ver lista de artigos

Partilhar no Facebook