Homo Communicans
2010-03-11
Dr. António Sampaio in Revista Bipolar Nº 26 2005

O homem é um ser comunicante, mas dotado de interioridade!

A ideia de "sociedade de comunicação surge num período particularmente crítico nos meados do século XX, no preciso tempo em que se inicia um conflito mundial no sentido da barbárie. Estavam a acontecer os campos de concentração nazis e era utilizada a bomba atómica. O segredo é mantido a todos os níveis da hierarquia militar alemã. Até nos campos de concentração é sob o segredo que se comete o assassinato colectivo. Foi em segredo que se rodeou a operação T4 que consistiu em planear o assassinato dos doentes mentais alemães. Só os libertadores de 1945 descobrem aquilo que não era menos do que um genocídio organizado à escala de um continente. O secretismo em que a barbárie é envolta irá ter como reacção uma nova utopia: A sociedade sem segredos, uma sociedade de comunicação. Os matemáticos e os técnicos do pós-guerra, numa atitude redentora da ciência, apressam-se na construção das "máquinas de comunicar" que irão facilitar a sociedade de comunicação. Von Neumann entre os seus trabalhos calcula o momento exacto em que uma bomba atómica deve explodir para causar o máximo de destruição. É ele que irá inventar o computador. O computador irá funcionar pela primeira vez em 1948. Nos anos cinquenta a televisão começa a ser um meio de comunicação de massas. O computador assegura uma nova era, em que a racionalidade de sobrepõe à loucura dos homens. A televisão irá assegurar a nova sociedade "transparente". Estão criados dois novos paradigmas: a "revolução informática" e a "sociedade de informação" Tratam-se de paradigmas pós-traumáticos. A sociedade de comunicação ergue-se na recusa da exclusão.

Nas últimas décadas, contudo, temos assistido aos efeitos perversos da "bandeira" da comunicação. A comunicação é hoje fonte de novas exclusões. Os media vieram impor uma nova ditadura que dita os comportamentos adequados e os condenáveis, mesmo antes do sistema judicial se pronunciar. Ao serviço no novo liberalismo, a informação tornou-se uma mercadoria. Os media construíram um "homem moderno", informado, funcional e adequado, que consome o que lhe é dito ser bom e que presta muita atenção aos problemas mediáticos e pouca aos reais. O "homem moderno" acredita que entende o sentido das coisas só porque se julga informado. Na realidade, o homem de hoje pode passar uma vida inteira na mais profunda das ignorâncias, justamente porque se julga informado. Porque será que apesar de assistirmos em directo ao recente conflito armado entre os Estados Unidos e o Iraque nos fica a sensação de que não recebemos a mensagem realmente significativa? Mesmo nos seus domínios mais privados o "homem moderno" tenta uma teatralização do que lhe foi "passado" pelos media. A falta de ligação social facilita uma cada vez maior invasão dos efeitos perversos dos media. O homem deixa de ser dirigido do interior para o ser do exterior. Torna-se escravo da sua própria imagem. A ditadura da "normalidade" impõe-se de forma esmagadora e os que a ela não pertencem, sentem vergonha. Aquele que conduz a sua vida a partir da sua "riqueza interior" é o "pobre diabo" dos nossos dias. Os valores como a democracia também caíram e são hoje apenas "tempos de antena". Hoje quando se fala de futuro, fala-se de novas tecnologias e não de novos ideais.

Se o Homo Communicans é um homem sem interioridade, ao verdadeiro Homem resta-lhe esconder o que suspeita ser a sua loucura ou apenas falar dela no consultório do psiquiatra.
A psiquiatria enquanto valorizar a interioridade do homem e estiver pouco ligada às novas tecnologias, não será uma área científica privilegiada nas sociedades modernas.

António Sampaio
Assistente Graduado de Psiquiatria do H.J.M.

 

 

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