{"id":28523,"date":"2007-03-11T13:29:24","date_gmt":"2007-03-11T13:29:24","guid":{"rendered":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/?p=28523"},"modified":"2019-01-29T19:56:52","modified_gmt":"2019-01-29T19:56:52","slug":"um-olhar-fragmento-de-uma-emocao-inteira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/2007\/03\/um-olhar-fragmento-de-uma-emocao-inteira\/","title":{"rendered":"Um Olhar &#8211; Fragmento de uma Emo\u00e7\u00e3o Inteira"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section bb_built=&#8221;1&#8243; admin_label=&#8221;section&#8221; width_unit=&#8221;off&#8221; fullwidth=&#8221;on&#8221; specialty=&#8221;off&#8221; _builder_version=&#8221;3.9&#8243; next_background_color=&#8221;#000000&#8243; custom_padding_tablet=&#8221;50px|0|50px|0&#8243; custom_padding_last_edited=&#8221;on|desktop&#8221;][et_pb_fullwidth_header title=&#8221;ARTIGOS&#8221; scroll_down_icon=&#8221;\ue04c&#8221; background_color=&#8221;#3d4b59&#8243; _builder_version=&#8221;3.9&#8243; background_image=&#8221;https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tild3636-6265-4163-b562-616631623338__fonemma.png&#8221; \/][et_pb_fullwidth_post_title _builder_version=&#8221;3.9&#8243; featured_image=&#8221;off&#8221; categories=&#8221;off&#8221; comments=&#8221;off&#8221; \/][\/et_pb_section][et_pb_section bb_built=&#8221;1&#8243; prev_background_color=&#8221;#000000&#8243;][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text]<\/p>\n<div class=\"inartsub\"><em>Dr. Ant\u00f3nio Sampaio in Revista Bipolar N\u00ba 25 2004<\/em><\/div>\n<div class=\"inarttext\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>\u00c9 para os olhos que olhamos primeiro e mais tempo.<\/strong><\/p>\n<p>Desde logo porque assim observamos o outro e certificamo-nos da sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s. Eternamente inseguros, tentamos prender o olhar do outro no nosso para sentirmos que o nosso conte\u00fado, e n\u00e3o tanto a forma, \u00e9 valorizada prioritariamente. Queremos continuar a acreditar que somos, acima de tudo, intelecto. De facto, as crian\u00e7as ainda pouco contaminadas com conceitos e cren\u00e7as que o homem imp\u00f5e a si mesmo olham-nos de forma mais igual e det\u00eam-se tanto a observar a nossa m\u00e3o como o nosso nariz. Tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam medo de serem olhadas e mostram-nos as palmas das m\u00e3os como que surpreendidas por insistirmos tanto em olharmos para os olhos uns dos outros. Quando estamos perante algu\u00e9m realmente deprimido podemos admirar-nos porque n\u00e3o choram os olhos. Realmente no doente deprimido \u00e9 todo o corpo que se entristece de igual modo. Neste estado o indiv\u00edduo j\u00e1 desistiu de comunicar pelo olhar. Mais do que procurar os olhos do outro, olha o seu corpo e estranha-o. A diferen\u00e7a que nota agora em si n\u00e3o \u00e9 tanto nos olhos mas em toda a sua corporalidade e energia. Outra est\u00e9tica se anuncia onde a beleza e a fealdade deixam de ser as refer\u00eancias. Toda a express\u00e3o art\u00edstica est\u00e1 agora inibida. O deprimido apenas encontra fragmentos dos seres amados. Sente o caos, a destrui\u00e7\u00e3o e muitas vezes a morte. O seu desespero parece ser irremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Provavelmente \u00e9 nas situa\u00e7\u00f5es limite de tristeza e de euforia que o homem se aproxima mais da sua raiz antropol\u00f3gica e \u00e9, como as crian\u00e7as, menos soci\u00e1vel e mais desconcertante. O doente bipolar revive as suas emo\u00e7\u00f5es mais precoces mas j\u00e1 n\u00e3o encontra o seio reconfortante. Em desespero sente o vazio apoderar-se de si e o tempo a tornar-se imenso. Como a crian\u00e7a, n\u00e3o se sente nem jovem nem velho, mas eterno na sua debilidade ou na sua for\u00e7a. Apercebe-se, como n\u00e3o conseguem os outros, qu\u00e3o pequena, qu\u00e3o simples \u00e9 a forma que o homem d\u00e1 \u00e0s emo\u00e7\u00f5es. Admira-se o doente com o que faz transformar um olhar noutro, com o que faz rir ou chorar. Mas ao mesmo tempo o doente tem saudades dessa simplicidade de sentimentos que norteiam as pessoas ditas normais.<\/p>\n<p>Ao sair do estado m\u00f3rbido o indiv\u00edduo vai recriar o seu mundo interno, reunir as pe\u00e7as e incutir vida aos fragmentos mortos. Ir\u00e1 contudo, ver o mundo como algu\u00e9m que regressa de uma outra dimens\u00e3o que n\u00e3o esquecer\u00e1. Por vezes sente necessidade de exorcizar o mundo fantasmag\u00f3rico onde esteve. A mensagem captada pelo p\u00fablico \u00e9 a de que apesar de tal mundo estar muito, demasiado, perto o &#8220;lado de c\u00e1&#8221; sobrevive.<\/p>\n<p>Mais do que tudo, a pessoa que esteve doente sente a necessidade de fixar o mundo reencontrado e das mais diversas maneiras, tenta regist\u00e1-lo. A arte surge tamb\u00e9m como uma tentativa de prevenir novos estados em que o mundo perde o sentido e a harmonia. Mais do que as outras, as pessoas que para l\u00e1 do mundo estiveram conseguem represent\u00e1-lo de forma total, completa e unificada.<\/p>\n<p>Por vezes voltam a fixar o olhar do outro mas apreciam-no e recordam-no, para al\u00e9m de o procurarem entender.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Dr. Ant\u00f3nio Sampaio<br \/><em>M\u00e9dico Psiquiatra<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 para os olhos que olhamos primeiro e mais tempo. 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De facto, as crian\u00e7as ainda pouco contaminadas com conceitos e cren\u00e7as que o homem imp\u00f5e a si mesmo olham-nos de forma mais igual e det\u00eam-se tanto a observar a nossa m\u00e3o como o nosso nariz. Tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam medo de serem olhadas e mostram-nos as palmas das m\u00e3os como que surpreendidas por insistirmos tanto em olharmos para os olhos uns dos outros. Quando estamos perante algu\u00e9m realmente deprimido podemos admirar-nos porque n\u00e3o choram os olhos. Realmente no doente deprimido \u00e9 todo o corpo que se entristece de igual modo. Neste estado o indiv\u00edduo j\u00e1 desistiu de comunicar pelo olhar. Mais do que procurar os olhos do outro, olha o seu corpo e estranha-o. A diferen\u00e7a que nota agora em si n\u00e3o \u00e9 tanto nos olhos mas em toda a sua corporalidade e energia. Outra est\u00e9tica se anuncia onde a beleza e a fealdade deixam de ser as refer\u00eancias. Toda a express\u00e3o art\u00edstica est\u00e1 agora inibida. O deprimido apenas encontra fragmentos dos seres amados. Sente o caos, a destrui\u00e7\u00e3o e muitas vezes a morte. O seu desespero parece ser irremedi\u00e1vel.<\/p><p>Provavelmente \u00e9 nas situa\u00e7\u00f5es limite de tristeza e de euforia que o homem se aproxima mais da sua raiz antropol\u00f3gica e \u00e9, como as crian\u00e7as, menos soci\u00e1vel e mais desconcertante. O doente bipolar revive as suas emo\u00e7\u00f5es mais precoces mas j\u00e1 n\u00e3o encontra o seio reconfortante. Em desespero sente o vazio apoderar-se de si e o tempo a tornar-se imenso. Como a crian\u00e7a, n\u00e3o se sente nem jovem nem velho, mas eterno na sua debilidade ou na sua for\u00e7a. Apercebe-se, como n\u00e3o conseguem os outros, qu\u00e3o pequena, qu\u00e3o simples \u00e9 a forma que o homem d\u00e1 \u00e0s emo\u00e7\u00f5es. Admira-se o doente com o que faz transformar um olhar noutro, com o que faz rir ou chorar. Mas ao mesmo tempo o doente tem saudades dessa simplicidade de sentimentos que norteiam as pessoas ditas normais.<\/p><p>Ao sair do estado m\u00f3rbido o indiv\u00edduo vai recriar o seu mundo interno, reunir as pe\u00e7as e incutir vida aos fragmentos mortos. Ir\u00e1 contudo, ver o mundo como algu\u00e9m que regressa de uma outra dimens\u00e3o que n\u00e3o esquecer\u00e1. Por vezes sente necessidade de exorcizar o mundo fantasmag\u00f3rico onde esteve. A mensagem captada pelo p\u00fablico \u00e9 a de que apesar de tal mundo estar muito, demasiado, perto o \"lado de c\u00e1\" sobrevive.<\/p><p>Mais do que tudo, a pessoa que esteve doente sente a necessidade de fixar o mundo reencontrado e das mais diversas maneiras, tenta regist\u00e1-lo. A arte surge tamb\u00e9m como uma tentativa de prevenir novos estados em que o mundo perde o sentido e a harmonia. 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