{"id":28527,"date":"2006-03-11T13:31:43","date_gmt":"2006-03-11T13:31:43","guid":{"rendered":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/?p=28527"},"modified":"2019-01-29T19:56:52","modified_gmt":"2019-01-29T19:56:52","slug":"o-cerebro-a-mente-e-os-mitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/2006\/03\/o-cerebro-a-mente-e-os-mitos\/","title":{"rendered":"O C\u00e9rebro, a Mente e os Mitos"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section bb_built=&#8221;1&#8243; admin_label=&#8221;section&#8221; width_unit=&#8221;off&#8221; fullwidth=&#8221;on&#8221; specialty=&#8221;off&#8221; _builder_version=&#8221;3.9&#8243; next_background_color=&#8221;#000000&#8243; custom_padding_tablet=&#8221;50px|0|50px|0&#8243; custom_padding_last_edited=&#8221;on|desktop&#8221;][et_pb_fullwidth_header title=&#8221;ARTIGOS&#8221; scroll_down_icon=&#8221;\ue04c&#8221; background_color=&#8221;#3d4b59&#8243; _builder_version=&#8221;3.9&#8243; background_image=&#8221;https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/tild3636-6265-4163-b562-616631623338__fonemma.png&#8221; \/][et_pb_fullwidth_post_title _builder_version=&#8221;3.9&#8243; featured_image=&#8221;off&#8221; categories=&#8221;off&#8221; comments=&#8221;off&#8221; \/][\/et_pb_section][et_pb_section bb_built=&#8221;1&#8243; prev_background_color=&#8221;#000000&#8243;][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text]<\/p>\n<div class=\"inartsub\"><em>Dr. Ant\u00f3nio Sampaio in BIPOLAR n\u00ba 29 &#8211; Revista da ADEB<\/em><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div class=\"inarttext\">\n<p>A afectividade humana \u00e9 tipicamente ambivalente. Deus e diabo coexistem nos sentimentos que temos em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Na religi\u00e3o a separa\u00e7\u00e3o das \u00e1guas \u00e9 mais f\u00e1cil. Em todos os movimentos psicol\u00f3gicos do Homem alguma ambival\u00eancia \u00e9 tolerada at\u00e9 certo ponto. H\u00e1 no choro da crian\u00e7a quando v\u00ea afastar-se a m\u00e3e, o desejo de a ter de volta e a zanga por t\u00ea-lo abandonado. Esta tristeza \u00e9 algo muito pr\u00f3prio da esp\u00e9cie e faz um apelo ao afecto do que se ausentou ou ao de outros que o substituam. Em qualquer caso impede a solid\u00e3o. Privado do afecto desejado o Homem &#8220;abra\u00e7a&#8221; e &#8220;agride&#8221; o que vem ao seu encontro. Se s\u00f3, far\u00e1 o mesmo em rela\u00e7\u00e3o a si pr\u00f3prio. Neste caso, incapaz de expandir a sua revolta, esta vira-se contra si pr\u00f3prio e inevitavelmente causar\u00e1 algum dano. \u00c9 que, se numa perda \u00e9 o mundo que nos parece mais pobre e vazio, noutra, somos n\u00f3s que nos sentimos mais pobres e vazios. Muitas vezes, quando o Homem perde o &#8220;objecto&#8221; amado, esta perda produz efeitos no pr\u00f3prio &#8220;Eu&#8221;. Tendo em conta a omnipresente ambival\u00eancia, o \u00f3dio pelo &#8220;objecto&#8221; perdido &#8220;ataca&#8221; parte do &#8220;Eu&#8221; identificada com o &#8220;objecto&#8221;.<\/p>\n<p>A vida do Homem \u00e9 muito provavelmente um somat\u00f3rio de perdas: a perda do meio uterino, a perda do seio, a perda da inf\u00e2ncia, da juventude \u2026 A \u00faltima perda \u00e9 a perda da vida. Nesta, toda a exist\u00eancia recai nos outros. A &#8220;Alma&#8221; sair\u00e1 do corpo e fundir-se-\u00e1 com o divino ou seja com o &#8220;Superego&#8221; colectivo.<\/p>\n<p>Em todos os processos de perda ao longo da evolu\u00e7\u00e3o libidinal, alguma parte recai sobre o &#8220;Eu&#8221;. A &#8221; modelagem&#8221; que vai sendo feita a n\u00edvel cerebral dotar\u00e1 o Indiv\u00edduo de &#8220;meios&#8221; para fazer frente \u00e0s perdas futuras. Quando o processo de perda \u00e9 bem elaborado, as &#8220;feridas&#8221; da\u00ed resultantes s\u00e3o saradas de forma a que se possa investir de novo afectivamente. Uma boa &#8220;plasticidade&#8221; cerebral levar\u00e1 a que o Indiv\u00edduo restabele\u00e7a v\u00ednculos com o mundo exterior e com a imagem do &#8220;objecto&#8221; perdido.<\/p>\n<p>Se a perda n\u00e3o consegue ser bem elaborada dar\u00e1 origem a &#8220;defesas&#8221; isto \u00e9 a &#8220;cicatrizes&#8221; mais ou menos extensas que perdurar\u00e3o no tempo. V\u00e1rios factores podem concorrer para que tal aconte\u00e7a.<br \/>Alguns deles ser\u00e3o seguramente gen\u00e9ticos e ter\u00e3o que ver com a vulnerabilidade a factores stressantes ou mesmo com a probabilidade de exposi\u00e7\u00e3o a acontecimentos de vida constituindo factores de risco de gerar depress\u00e3o, (\u00e9 particularmente o caso dos acontecimentos de vida que s\u00e3o directamente ou indirectamente influenciados pelo &#8220;Eu&#8221; na sua interac\u00e7\u00e3o com o mundo). Assim, o risco de doen\u00e7a depressiva estar\u00e1 ligado \u00e0 susceptibilidade gen\u00e9tica e \u00e0 probabilidade de exposi\u00e7\u00e3o a factores de risco ambientais, sendo que esta probabilidade depende em parte daquela.<br \/>Outros, estar\u00e3o ligados \u00e0 quantidade e qualidade dos acontecimentos de vida potencialmente geradores de stress. A maioria dos estudos aponta para que um excesso de perdas esteja relacionado com o desenvolvimento da doen\u00e7a depressiva.<br \/>Stress significa um &#8220;esfor\u00e7o&#8221; do organismo em manter a homeostase quando exposto a for\u00e7as geradoras de desequil\u00edbrios (Cannon 1929).<\/p>\n<p>Os acontecimentos de vida que levam a uma perturba\u00e7\u00e3o na homeostase ps\u00edquica podem ser externos ou internos e ter que ver com perdas v\u00e1rias: de entes queridos, de capacidades f\u00edsicas, de respeitabilidade, de auto-estima, etc. Claro que os estados depressivos &#8220;favorecem&#8221; o aparecimento de acontecimentos de vida negativos e assim contribuir para certa cronicidade da perturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De referir que alguns estudos relacionam a g\u00e9nese da doen\u00e7a depressiva mais com o stress cr\u00f3nico que com os acontecimentos traum\u00e1ticos agudos (Brawn e Harris, 1978; McGonagle e Kessler,1990). A forma como as &#8220;dificuldades&#8221; cr\u00f3nicas e os acontecimentos agudos concorrem para a g\u00e9nese de uma perturba\u00e7\u00e3o depressiva n\u00e3o \u00e9 clara. Para alguns, quando estes factores ocorrem em conjunto o risco de desenvolver depress\u00e3o aumenta dez vezes em compara\u00e7\u00e3o ao risco em Indiv\u00edduos n\u00e3o expostos a nenhuma das situa\u00e7\u00f5es ( Van de Willige e col., 1995). Para outros por\u00e9m, o stress cr\u00f3nico levaria a uma redu\u00e7\u00e3o dos efeitos emocionais do stress agudo ( McGonagle e Kessler, 1990). H\u00e1 realmente casos em que a adversidade cr\u00f3nica torna o Indiv\u00edduo mais &#8220;capaz&#8221; a enfrentar uma adversidade aguda. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 casos em que esta mesma situa\u00e7\u00e3o leva ao &#8220;colapso&#8221; emocional. \u00c9 o factor da individualidade que est\u00e1 em causa. Cada homem \u00e9 o somat\u00f3rio de uma mir\u00edade de factores filogen\u00e9ticos e ontog\u00e9nicos que fazem dele um fen\u00f3meno hist\u00f3rico-biogr\u00e1fico \u00fanico. Contudo, alguns factores de vulnerabilidade podem ser apontados. Um deles \u00e9 a perda da m\u00e3e antes dos 11 anos de idade, o que vem de encontro \u00e0 teoria de vincula\u00e7\u00e3o de Bowlby (1988). De facto, estudos posteriores apontam que as perdas e as adversidades vividas precocemente constituem factores de vulnerabilidade \u00e0 doen\u00e7a depressiva.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 referido, a gen\u00e9tica \u00e9, na doen\u00e7a depressiva, um factor de vulnerabilidade relevante. Estudos familiares apontam para um risco de doen\u00e7a nos parentes em 1o grau de pessoas com doen\u00e7a depressiva 2 a 4 vezes mais elevado em compara\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o em geral ( Rice e col., 1987; Mc Guffin e col.,1988; Sullivan e col.,2000). Contudo, h\u00e1 que ter em conta que os factores gen\u00e9ticos dever\u00e3o, no caso da doen\u00e7a depressiva, estar muito associados aos efeitos do ambiente.<\/p>\n<p>Do ponto de vista bioqu\u00edmico t\u00eam sido encontradas v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es nas perturba\u00e7\u00f5es do humor. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a depressiva e genericamente podemos falar em d\u00e9fices funcionais relativos \u00e0 serotonina (5-HT) e dopamina (DA). Em rela\u00e7\u00e3o ao sistema serotonin\u00e9rgico t\u00eam sido relatadas altera\u00e7\u00f5es quer ao n\u00edvel dos metabol\u00edtos quer ao n\u00edvel dos receptores. Como certas substancias farmacol\u00f3gicas que actuam especificamente neste sistema t\u00eam efeitos antidepressivos \u00e9 de postular que as perturba\u00e7\u00f5es a n\u00edvel serotonin\u00e9rgico representem um papel na patofisiologia da depress\u00e3o. Contudo, parece que as perturba\u00e7\u00f5es a n\u00edvel dos sistemas das catecolaminas est\u00e3o mais relaccionados com &#8220;estados&#8221; do que com a patologia propriamente dita (Higley e col.,1992; Mehlman e col., 1994 ).<br \/>Mais intrigantes s\u00e3o os resultados dos estudos do sistema noradren\u00e9rgico (NA). O stress parece desencadear um aumento da produ\u00e7\u00e3o da hormona de liberta\u00e7\u00e3o da corticotrofina (CRH) no hipot\u00e1lamo, activa\u00e7\u00e3o do eixo hipot\u00e1lamo-pituit\u00e1ria-supra-renal (HPA) e consequente activa\u00e7\u00e3o no sistema NA. Tais altera\u00e7\u00f5es a n\u00edvel da neurofisiologia poder\u00e3o ser a &#8220;base&#8221; de certas formas de depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Os est\u00edmulos psicol\u00f3gicos levam a uma activa\u00e7\u00e3o neuronal a n\u00edvel l\u00edmbico-cortical, especialmente dos circuitos na am\u00edgdala, no hipocampo e no c\u00f3rtex frontal. O stress leva a uma liberta\u00e7\u00e3o de ACTH que por sua vez leva \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de cortisol pelas supra-renais. Ora, a hiper-cortisolemia quando persistente pode levar a les\u00e3o no hipocampo.<\/p>\n<p>Do ponto de vista neuro-estrutural v\u00e1rios estu- dos revelaram diminui\u00e7\u00e3o do volume do hipocampo em pessoas com doen\u00e7a depressiva (Sheline e col.,1996; Mervaala e col., 2000; Vythilingam e col., 2002.). Uma hip\u00f3tese poss\u00edvel \u00e9 que esta diminui\u00e7\u00e3o seja devida a hipercortisol\u00e9mia por stress prolongado. Para alguns (Axelson e col., 1993), tal diminui\u00e7\u00e3o do volume do hipocampo est\u00e1 relacionada com a dura\u00e7\u00e3o da sintomatologia depressiva e com o n\u00famero de hospitaliza\u00e7\u00f5es. Mas h\u00e1 mesmo estudos que referem uma diminui\u00e7\u00e3o do comprimento dos dendritos nos neur\u00f3nios do hipocampo relacionada com o stress prolongado (Magari\u00f1os AM, McEwen BS. 1995).<\/p>\n<p>Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio ter em conta que a plasticidade cerebral e muito particularmente a plasticidade do hipocampo \u00e9 muito maior do que h\u00e1 uns anos se pensava. Mais do que isso, estudos revelam que existe a possibilidade de que a neurog\u00e9nese, o surgimento de novos neur\u00f3nios, ocorra mesmo no c\u00e9rebro adulto (Eriksson PS, Perfilieva E, Bjork-Eriksson T, e tal. 1998) particularmente em certas \u00e1reas que incluem o hipocampo. Estes achados v\u00eam por em causa o antigo &#8220;pilar&#8221; das neuroci\u00eancias que postulava que os mam\u00edferos nasciam com o n\u00famero de neur\u00f3nios que apenas poderiam vir a diminuir ao longo da vida: &#8220;&#8230;once the development was ended, the founts of growth and regeneration of the axons and dendrites dried up irrevocably. In adult centres the nerve paths are something fixed, ended, immutable. Everything may die, nothing may regenerate.&#8221; ( Santiago Ramon y Cajal (1852-1934).<\/p>\n<p>As terap\u00eauticas com o uso de antidepressivos actuam n\u00e3o somente a n\u00edvel bioqu\u00edmico (na actividade monoamin\u00e9rgica) mas muito provavelmente tamb\u00e9m a n\u00edvel da neurog\u00e9nese particularmente a n\u00edvel do hipocampo (Santarelli L, Saxe M, Gross C, e tal., 2003). \u00c9 razo\u00e1vel admitir que outras interven\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas, cognitivo-comportamentais e outras psicoterapias, possam tamb\u00e9m levar a uma &#8220;cicatriza\u00e7\u00e3o&#8221; das &#8220;feridas&#8221; criadas por viv\u00eancias negativas prolongadas.<\/p>\n<p>Assim, h\u00e1 hoje que pensar que o c\u00e9rebro \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o extraordinariamente din\u00e2mico e que tem uma plasticidade que abrange uma modula\u00e7\u00e3o dendr\u00edtica e mesmo neuronal que lhe confere uma potencial capacidade de &#8220;regenera\u00e7\u00e3o&#8221; .Tal &#8220;regenera\u00e7\u00e3o&#8221; aumenta a responsabilidade de interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. Mais do que isso, revela ao Homem que \u00e9 cada vez mais respons\u00e1vel pelo seu pr\u00f3prio futuro, que das atitudes que tomar hoje depender\u00e1 o Homem de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Em suma, todo o investimento vale a pena e a desist\u00eancia n\u00e3o tem qualquer defesa cient\u00edfica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f3nio Sampaio Psiquiatra do H.J.M.<br \/><em>Mestre em Neuroci\u00eancias pelo Instituto de Psiquiatria de Londres<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A afectividade humana \u00e9 tipicamente ambivalente. Deus e diabo coexistem nos sentimentos que temos em rela\u00e7\u00e3o aos outros.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"on","_et_pb_old_content":"<div class=\"inartsub\"><em>Dr. Ant\u00f3nio Sampaio in BIPOLAR n\u00ba 29 - Revista da ADEB<\/em><\/div><div>\u00a0<\/div><div class=\"inarttext\"><p>A afectividade humana \u00e9 tipicamente ambivalente. Deus e diabo coexistem nos sentimentos que temos em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Na religi\u00e3o a separa\u00e7\u00e3o das \u00e1guas \u00e9 mais f\u00e1cil. Em todos os movimentos psicol\u00f3gicos do Homem alguma ambival\u00eancia \u00e9 tolerada at\u00e9 certo ponto. H\u00e1 no choro da crian\u00e7a quando v\u00ea afastar-se a m\u00e3e, o desejo de a ter de volta e a zanga por t\u00ea-lo abandonado. Esta tristeza \u00e9 algo muito pr\u00f3prio da esp\u00e9cie e faz um apelo ao afecto do que se ausentou ou ao de outros que o substituam. Em qualquer caso impede a solid\u00e3o. Privado do afecto desejado o Homem \"abra\u00e7a\" e \"agride\" o que vem ao seu encontro. Se s\u00f3, far\u00e1 o mesmo em rela\u00e7\u00e3o a si pr\u00f3prio. Neste caso, incapaz de expandir a sua revolta, esta vira-se contra si pr\u00f3prio e inevitavelmente causar\u00e1 algum dano. \u00c9 que, se numa perda \u00e9 o mundo que nos parece mais pobre e vazio, noutra, somos n\u00f3s que nos sentimos mais pobres e vazios. Muitas vezes, quando o Homem perde o \"objecto\" amado, esta perda produz efeitos no pr\u00f3prio \"Eu\". Tendo em conta a omnipresente ambival\u00eancia, o \u00f3dio pelo \"objecto\" perdido \"ataca\" parte do \"Eu\" identificada com o \"objecto\".<\/p><p>A vida do Homem \u00e9 muito provavelmente um somat\u00f3rio de perdas: a perda do meio uterino, a perda do seio, a perda da inf\u00e2ncia, da juventude \u2026 A \u00faltima perda \u00e9 a perda da vida. Nesta, toda a exist\u00eancia recai nos outros. A \"Alma\" sair\u00e1 do corpo e fundir-se-\u00e1 com o divino ou seja com o \"Superego\" colectivo.<\/p><p>Em todos os processos de perda ao longo da evolu\u00e7\u00e3o libidinal, alguma parte recai sobre o \"Eu\". A \" modelagem\" que vai sendo feita a n\u00edvel cerebral dotar\u00e1 o Indiv\u00edduo de \"meios\" para fazer frente \u00e0s perdas futuras. Quando o processo de perda \u00e9 bem elaborado, as \"feridas\" da\u00ed resultantes s\u00e3o saradas de forma a que se possa investir de novo afectivamente. Uma boa \"plasticidade\" cerebral levar\u00e1 a que o Indiv\u00edduo restabele\u00e7a v\u00ednculos com o mundo exterior e com a imagem do \"objecto\" perdido.<\/p><p>Se a perda n\u00e3o consegue ser bem elaborada dar\u00e1 origem a \"defesas\" isto \u00e9 a \"cicatrizes\" mais ou menos extensas que perdurar\u00e3o no tempo. V\u00e1rios factores podem concorrer para que tal aconte\u00e7a.<br \/>Alguns deles ser\u00e3o seguramente gen\u00e9ticos e ter\u00e3o que ver com a vulnerabilidade a factores stressantes ou mesmo com a probabilidade de exposi\u00e7\u00e3o a acontecimentos de vida constituindo factores de risco de gerar depress\u00e3o, (\u00e9 particularmente o caso dos acontecimentos de vida que s\u00e3o directamente ou indirectamente influenciados pelo \"Eu\" na sua interac\u00e7\u00e3o com o mundo). Assim, o risco de doen\u00e7a depressiva estar\u00e1 ligado \u00e0 susceptibilidade gen\u00e9tica e \u00e0 probabilidade de exposi\u00e7\u00e3o a factores de risco ambientais, sendo que esta probabilidade depende em parte daquela.<br \/>Outros, estar\u00e3o ligados \u00e0 quantidade e qualidade dos acontecimentos de vida potencialmente geradores de stress. A maioria dos estudos aponta para que um excesso de perdas esteja relacionado com o desenvolvimento da doen\u00e7a depressiva.<br \/>Stress significa um \"esfor\u00e7o\" do organismo em manter a homeostase quando exposto a for\u00e7as geradoras de desequil\u00edbrios (Cannon 1929).<\/p><p>Os acontecimentos de vida que levam a uma perturba\u00e7\u00e3o na homeostase ps\u00edquica podem ser externos ou internos e ter que ver com perdas v\u00e1rias: de entes queridos, de capacidades f\u00edsicas, de respeitabilidade, de auto-estima, etc. Claro que os estados depressivos \"favorecem\" o aparecimento de acontecimentos de vida negativos e assim contribuir para certa cronicidade da perturba\u00e7\u00e3o.<\/p><p>De referir que alguns estudos relacionam a g\u00e9nese da doen\u00e7a depressiva mais com o stress cr\u00f3nico que com os acontecimentos traum\u00e1ticos agudos (Brawn e Harris, 1978; McGonagle e Kessler,1990). A forma como as \"dificuldades\" cr\u00f3nicas e os acontecimentos agudos concorrem para a g\u00e9nese de uma perturba\u00e7\u00e3o depressiva n\u00e3o \u00e9 clara. Para alguns, quando estes factores ocorrem em conjunto o risco de desenvolver depress\u00e3o aumenta dez vezes em compara\u00e7\u00e3o ao risco em Indiv\u00edduos n\u00e3o expostos a nenhuma das situa\u00e7\u00f5es ( Van de Willige e col., 1995). Para outros por\u00e9m, o stress cr\u00f3nico levaria a uma redu\u00e7\u00e3o dos efeitos emocionais do stress agudo ( McGonagle e Kessler, 1990). H\u00e1 realmente casos em que a adversidade cr\u00f3nica torna o Indiv\u00edduo mais \"capaz\" a enfrentar uma adversidade aguda. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 casos em que esta mesma situa\u00e7\u00e3o leva ao \"colapso\" emocional. \u00c9 o factor da individualidade que est\u00e1 em causa. Cada homem \u00e9 o somat\u00f3rio de uma mir\u00edade de factores filogen\u00e9ticos e ontog\u00e9nicos que fazem dele um fen\u00f3meno hist\u00f3rico-biogr\u00e1fico \u00fanico. Contudo, alguns factores de vulnerabilidade podem ser apontados. Um deles \u00e9 a perda da m\u00e3e antes dos 11 anos de idade, o que vem de encontro \u00e0 teoria de vincula\u00e7\u00e3o de Bowlby (1988). De facto, estudos posteriores apontam que as perdas e as adversidades vividas precocemente constituem factores de vulnerabilidade \u00e0 doen\u00e7a depressiva.<\/p><p>Como j\u00e1 referido, a gen\u00e9tica \u00e9, na doen\u00e7a depressiva, um factor de vulnerabilidade relevante. Estudos familiares apontam para um risco de doen\u00e7a nos parentes em 1o grau de pessoas com doen\u00e7a depressiva 2 a 4 vezes mais elevado em compara\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o em geral ( Rice e col., 1987; Mc Guffin e col.,1988; Sullivan e col.,2000). Contudo, h\u00e1 que ter em conta que os factores gen\u00e9ticos dever\u00e3o, no caso da doen\u00e7a depressiva, estar muito associados aos efeitos do ambiente.<\/p><p>Do ponto de vista bioqu\u00edmico t\u00eam sido encontradas v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es nas perturba\u00e7\u00f5es do humor. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a depressiva e genericamente podemos falar em d\u00e9fices funcionais relativos \u00e0 serotonina (5-HT) e dopamina (DA). Em rela\u00e7\u00e3o ao sistema serotonin\u00e9rgico t\u00eam sido relatadas altera\u00e7\u00f5es quer ao n\u00edvel dos metabol\u00edtos quer ao n\u00edvel dos receptores. Como certas substancias farmacol\u00f3gicas que actuam especificamente neste sistema t\u00eam efeitos antidepressivos \u00e9 de postular que as perturba\u00e7\u00f5es a n\u00edvel serotonin\u00e9rgico representem um papel na patofisiologia da depress\u00e3o. Contudo, parece que as perturba\u00e7\u00f5es a n\u00edvel dos sistemas das catecolaminas est\u00e3o mais relaccionados com \"estados\" do que com a patologia propriamente dita (Higley e col.,1992; Mehlman e col., 1994 ).<br \/>Mais intrigantes s\u00e3o os resultados dos estudos do sistema noradren\u00e9rgico (NA). O stress parece desencadear um aumento da produ\u00e7\u00e3o da hormona de liberta\u00e7\u00e3o da corticotrofina (CRH) no hipot\u00e1lamo, activa\u00e7\u00e3o do eixo hipot\u00e1lamo-pituit\u00e1ria-supra-renal (HPA) e consequente activa\u00e7\u00e3o no sistema NA. Tais altera\u00e7\u00f5es a n\u00edvel da neurofisiologia poder\u00e3o ser a \"base\" de certas formas de depress\u00e3o.<\/p><p>Os est\u00edmulos psicol\u00f3gicos levam a uma activa\u00e7\u00e3o neuronal a n\u00edvel l\u00edmbico-cortical, especialmente dos circuitos na am\u00edgdala, no hipocampo e no c\u00f3rtex frontal. O stress leva a uma liberta\u00e7\u00e3o de ACTH que por sua vez leva \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de cortisol pelas supra-renais. Ora, a hiper-cortisolemia quando persistente pode levar a les\u00e3o no hipocampo.<\/p><p>Do ponto de vista neuro-estrutural v\u00e1rios estu- dos revelaram diminui\u00e7\u00e3o do volume do hipocampo em pessoas com doen\u00e7a depressiva (Sheline e col.,1996; Mervaala e col., 2000; Vythilingam e col., 2002.). Uma hip\u00f3tese poss\u00edvel \u00e9 que esta diminui\u00e7\u00e3o seja devida a hipercortisol\u00e9mia por stress prolongado. Para alguns (Axelson e col., 1993), tal diminui\u00e7\u00e3o do volume do hipocampo est\u00e1 relacionada com a dura\u00e7\u00e3o da sintomatologia depressiva e com o n\u00famero de hospitaliza\u00e7\u00f5es. Mas h\u00e1 mesmo estudos que referem uma diminui\u00e7\u00e3o do comprimento dos dendritos nos neur\u00f3nios do hipocampo relacionada com o stress prolongado (Magari\u00f1os AM, McEwen BS. 1995).<\/p><p>Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio ter em conta que a plasticidade cerebral e muito particularmente a plasticidade do hipocampo \u00e9 muito maior do que h\u00e1 uns anos se pensava. Mais do que isso, estudos revelam que existe a possibilidade de que a neurog\u00e9nese, o surgimento de novos neur\u00f3nios, ocorra mesmo no c\u00e9rebro adulto (Eriksson PS, Perfilieva E, Bjork-Eriksson T, e tal. 1998) particularmente em certas \u00e1reas que incluem o hipocampo. Estes achados v\u00eam por em causa o antigo \"pilar\" das neuroci\u00eancias que postulava que os mam\u00edferos nasciam com o n\u00famero de neur\u00f3nios que apenas poderiam vir a diminuir ao longo da vida: \"...once the development was ended, the founts of growth and regeneration of the axons and dendrites dried up irrevocably. In adult centres the nerve paths are something fixed, ended, immutable. Everything may die, nothing may regenerate.\" ( Santiago Ramon y Cajal (1852-1934).<\/p><p>As terap\u00eauticas com o uso de antidepressivos actuam n\u00e3o somente a n\u00edvel bioqu\u00edmico (na actividade monoamin\u00e9rgica) mas muito provavelmente tamb\u00e9m a n\u00edvel da neurog\u00e9nese particularmente a n\u00edvel do hipocampo (Santarelli L, Saxe M, Gross C, e tal., 2003). \u00c9 razo\u00e1vel admitir que outras interven\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas, cognitivo-comportamentais e outras psicoterapias, possam tamb\u00e9m levar a uma \"cicatriza\u00e7\u00e3o\" das \"feridas\" criadas por viv\u00eancias negativas prolongadas.<\/p><p>Assim, h\u00e1 hoje que pensar que o c\u00e9rebro \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o extraordinariamente din\u00e2mico e que tem uma plasticidade que abrange uma modula\u00e7\u00e3o dendr\u00edtica e mesmo neuronal que lhe confere uma potencial capacidade de \"regenera\u00e7\u00e3o\" .Tal \"regenera\u00e7\u00e3o\" aumenta a responsabilidade de interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. Mais do que isso, revela ao Homem que \u00e9 cada vez mais respons\u00e1vel pelo seu pr\u00f3prio futuro, que das atitudes que tomar hoje depender\u00e1 o Homem de amanh\u00e3.<\/p><p>Em suma, todo o investimento vale a pena e a desist\u00eancia n\u00e3o tem qualquer defesa cient\u00edfica.<\/p><p>\u00a0<\/p><p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f3nio Sampaio Psiquiatra do H.J.M.<br \/><em>Mestre em Neuroci\u00eancias pelo Instituto de Psiquiatria de Londres<\/em><\/p><p>\u00a0<\/p><p>\u00a0<\/p><\/div>","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[199,285,26,23,197,198,200,279,182,201],"class_list":["post-28527","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-afectividade","tag-antonio-sampaio","tag-cerebro","tag-egoclinic","tag-mente","tag-mitos","tag-perdas","tag-psiquiatra","tag-psiquiatria","tag-sentimentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28527"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28527\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29327,"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28527\/revisions\/29327"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/egoclinic.pt\/PT\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}